Bem, como eu havia dito, eu comprei um pão de cereais no ALDI, enquanto estava ainda no hotel. Era um pão grande devia ter uns 30cm x 15cm x 10cm e foi perto de ser minha única comida por uns dias.
Começamos com um caso de amor, eu confuso e com muita fome e o pão lá, recém saído da máquina, quentinho, macio, cheio de cereais... eu comi quase um terço dele! Cortando com as mão, sem manteiga nem nada, só uma coca-cola para acompanhar! No dia seguinte foi ele que me recebeu no hotel, depois do susto que eu passei no EDEKA e dessa vez eu tinha Nutella, facas e água para me acompanhar. Tá certo que ele não era mais o mesmo, mas nada que a Nutella não escondesse. De noite ele ainda era "comível", mas já não importava colocar Nutella nele, valia mais a pena comer ele no seco e depois comer Nutella pura para pelo menos dar um gosto bom. No dia seguinte, ainda existia pão o suficiente para eu levar para o alojamento. E eu, por algum motivo, considerei uma boa ideia levar o pão...
Após um bom café da manhã no hotel, embalei minhas coisas, fiz o checkout na recepção e pedi um táxi. Eu fiz isso com uma boa margem de erro, de forma que eu cheguei quase duas horas adiantado no ponto de encontro. perto de quarenta minutos antes do horário estipulado eu vi um rapaz com uma mochila com a bandeira do Brasil e uma mala grande e apesar desses dois fatores serem bons sinais de que ele era um possível outro estudante do CsF, mas eu, devido ao meu estado de mau-humor e confusão mental, ignorei esses fatores. Dez minutos depois, desembarca uma linda guria de um táxi e com ela vem duas malas grandes e uma com uma bandeira do Brasil. Ajudei ela a tirar as malas do porta-malas do carro e de fato ela era brasileira, estudante do CsF, com isso começamos a conversar em português e o sujeito se aproximou e começou a conversar com a gente, a partir daí, vários outros estudantes foram aparecendo e fomos formando um grande circulo no ponto de encontro. E o pão, claro, quieto, dentro de uma sacola que eu estava levando.
Aos poucos alguns carros foram aparecendo com um papel afixado no vidro, com o logo do curso de idiomas, os motoristas desciam do carro com umas listas e chamavam alguns nomes de alguns alunos do CsF, estes embarcavam nos determinados veículos e eram encaminhados aos seus devidos alojamentos.
Não demorou muito e chegou a minha vez, eu, mais três brasileiros e claro, o pão, embarcamos em uma van. O veículo mal saiu do lugar e os que seriam meus colegas de alojamento começaram uma animada conversa sobre o lugar, aparentemente o endereço foi nos mandado por e-mail (que eu não verifiquei) e eles procuraram o local no google maps, de acordo com eles era bem isolado, longe de tudo, meio barra pesada, só tinha fábrica e armazém do lado, ou melhor, fábrica, armazém e um put... um estabelecimento comercial onde pessoas comercializam algo com a qual nasceram e esse comércio não é classificado como mercado negro de órgãos. Eu no entanto, não me preocupei tanto assim, pior que Hellsende não deveria ser.
E de fato não era. Realmente pareceu ser bem isolado de tudo (fica de fato longe do centro, mas existe uma boa área residencial e comercial aqui perto), mas nada barra pesada. O único triste é que levamos quase uma hora para chegar no lugar, o que indicava que perderíamos umas duas horas todo o dia só no deslocamento curso de idiomas/casa. O nosso alojamento ficava no alto de um prédio de "3 andares" no qual funcionava também o depósito de alguma firma e o escritório de alguma outra.
Fomos recebidos pelo Zelador e pelo que acreditamos ser a sua esposa. Ele só falava alemão e por sorte um dos nossos conseguia falar bem e se comunicar com ele. Ele nos deu um bolo de chaves e cada um escolheu um quarto, sobrando uma chave que ele recolheu, que seria para um brasileiro, previsto para chegar mais tarde. Depois disso ele explicou que os apartamentos 1, 2, 3 e 7 tinham que compartilhar o banheiro e a cozinha, os demais tinha banheiro e cozinha próprios. Para estes que tinham que compartilhar, havia uma escala de faxina semanal, e logo na primeira semana o apt 1 estava escalado para limpar o banheiro enquanto o 3 deveria limpar a cozinha. Eu, e o pão, eramos o apt 1.
O apartamento era (é, estou escrevendo nele) grande, havia uma grande televisão, uma mesa grande, uma cama, um armário, duas cadeiras e muito espaço. Não foi difícil arrumar minhas coisas, coloquei as roupas no armário, o computador em um canto da mesa e o pão, a nutella e as facas em outro. Habilitei o wi-fi, testei a internet e estando tudo ok, fiquei atoa.
Meus colegas estavam reclamando de fome, soubemos que havia um supermercado perto, mas também descobrimos que, com exceção de alguns restaurantes, nada na Alemanha abre aos domingos. Eu até ofereci o pão, mas o pessoal achou melhor irmos até o centro e comermos algo lá. E foi o que fizemos e perdemos mais 1/24 avos do dia dentro de um meio de transporte (o trem).
E isso para não ficar mais do que meia hora em um KFC, pois de fato não havia nada aberto e nem dava para passear direito, pois estava chovendo e a maioria de nós só tínhamos um casaco. Voltamos para a casa, totalizando assim 1/8 do dia dentro de algum veículo e ficamos fazendo nada até a fome bater de novo, mas rápido neles do que em mim, pois eu tinha um pão, uma garrafa d'água e nutella. Mas o fato é que o pão já não era mais o mesmo, foi com desgosto e pesar que eu comi algo que parecia uma esponja velha dentro de uma casca dura, estava ruim e eu preferi compartilhar a fome dos meus companheiros de alojamento do que comer o resto do pão. Ainda tentei me iludir "vou deixar o resto dele para o café da manhã".
Pouco depois disso chegou um táxi trazendo um novo estudante, tanto o taxista quanto o estudante não sabiam bem onde deveriam entrar e a sorte é que eu estava saindo para correr. Descobri que o sujeito era da minha cidade (mais tarde viria a descobrir que apesar dele ser da universidade, ele estudou no instituto inclusive chegou a começar uma graduação lá e que ele mora um quarteirão de distância da minha casa). Devido a todas as impossibilidades de comunicação tive que acordar o tradutor para ele intermediar a comunicação do Zelador, com o taxista e o novo estudante (que sortudo, pegou o quarto que havia sobrado, que era um com banheiro e cozinha).
Meus companheiros decidiram matar a fome pedindo uma pizza e essa foi a maior prova de que alguém entre nós sabia falar alemão. A pizza demorou um bocado para chegar, eu sei porque eu fiquei esperando o entregador chegar, do lado de fora do alojamento. Não era nada com relação à um desespero do tipo "se eu não comer essa pizza, vou ter que comer o pão", era mais uma curiosidade: desde que havia chegado na Alemanha, não havia visto uma moto sequer na rua, estava curioso para ver como viria o entregador e de fato ele não veio de moto e sim de smart.
Comemos e cada um contou sobre sua viagem de vinda para a Alemanha. No fim ajudamos a limpar o quarto que "hospedou" a janta, eu fui tomar meu banho e dormir pois no dia seguinte começaria o curso de alemão.
Acordamos cedo, todos com muita fome. Eu pelo "menos tenho o pão" pensei. Olhei para o pão, ele apenas me encarou, peguei a faca, ele fez com que não se importasse, comecei a serrar o bicho, uma pequena serragem caia sobre o plástico que eu comecei a sentir sobre a mesa mas eu estava apenas arranhando a criatura. Coloquei mais força, me perguntei se o corte da faca era tal qual o do serrote, ou se era igual à uma tico-tico... meu braço estava doendo e o corte não tinha avançado muito. Larguei a faca tomei distância, respirei fundo, avancei sobre o pão, dei um grito de carga e com muito esforço parti o pedaço que sobrava em dois. Com rancor nas aveias, o pão meio que me disse: "hahaha se você teve esse trabalho todo para me partir com uma faca nova, como acha que vai me mastigar". Mas eu conhecia um truque, ou achava que conhecia. Coloquei o pão e um pouco de água em uma panela, tampei e deixei esquentando. Esperava que ele estivesse mais macio quando o processo terminasse. De fato ele estava, agora era uma massa disforme, mutante, parecia um barro com viés barroco. "Por qual motivo fizeste isso comigo???" e eu respondi "Eu... eu só queria um pão mais macio", ele não precisou nem dar a entender "Por favor me descarte", talvez ele até porque ele nem quisesse isso, talvez ele quisesse vingança, mas na dúvida eu sempre penso na melhor das intenções e por isso fui jogar ele no lixo. O bicho estava grudado na panela e precisou de umas cinco pancadas para cair na lixeira, alguém jura ter ouvido um "eu voltarei", mas eu não ouvi nada, só o ronco da minha barriga.
Felizmente a fome era um problema compartilhado pelos meus colegas e nós resolvemos ela em um Kiosk, do lado do centro de idiomas.