sábado, 7 de março de 2015

E foi quando eu a vi, foi amor a primeira vista! (Liebe in Deutschland)



No meu segundo final de semana em Köln, logo após o treinamento intercultural, eu saí cedo de casa, com a sensação de que o destino havia reservado algo especial para mim.

Era uma manhã agradável de verão, a luz do sol tornava vívido o verde dos gramados e árvores da cidade, a temperatura estava agradável, era como se o dia estivesse convidando as pessoas a saírem de casa. Eu havia tomado um bahn (um metrô) para o centro e depois eu fui caminhando para uma praça, chamada Friesenplatz. Eu tinha quase certeza que ela estaria lá, esperando por mim, eu ainda não a conhecia, mas estava disposto a descobri-la.

E eu não precisei me esforçar muito, foi de cara, amor à primeira vista, entre centenas de outras eu a vi, imponente, orgulhosa, de uma beleza sem igual! Fui decidido, eu queria tê-la para mim, custasse o que que custasse! Tomei-a para mim, antes que outro o fizesse, levei-a para um canto, fiquei admirando sua beleza, depois dei-lhe presentes e então fui com ela para a minha casa.

O caminho foi longo, mas nem um pouco cansativo, pude aprecia-la a cada segundo do passeio, passamos por lugares lindos, que eu nem podia imaginar que existiam em uma cidade tão grande. Foi maravilhoso, quis contar dela para todos os meus amigos, mas me contive, não era a hora.

Passeamos e nos perdemos no final da tarde, a nossa sorte é que era verão e o sol demorou a se por, conseguimos voltar para a casa sãos e salvos.

Passei um bom tempo com ela em Köln, fomos juntos quase todos os dias para o curso de idiomas, fizesse sol, chuva, ou neve, eu sempre ia com ela. Passeamos bastante, conhecemos a região, o Reno era nosso lugar favorito.

Por todos esses bons momentos juntos eu não pude deixa-la para trás e por isso eu paguei mais caro, vim de trem e não de ônibus, para Kiel, para poder levar ela,minha bicicleta, comigo.

Em outras linhas:

Bicicletas são bem populares aqui na Alemanha, a maioria das cidades tem ciclovia e é bem seguro pedalar por aqui, a maior ameaça à segurança dos ciclistas são justamente... os outros ciclistas. No entanto não espere uma utopia de duas rodas, é comum carros pararem na ciclovia, na verdade é comum e é legal e você ciclistas não pode dar uma de terrorista de duas rodas e se indignar e criar barraco com isso (como muita gente faz, em certos lugares do mundo), você deve apenas dar a "seta" sair da ciclovia e retornar assim que possível.

Köln é uma cidade muita plana, perfeita para andar de bicicleta, eu não demorei a perceber isso e assim que pude fui procurar uma para comprar, no entanto uma bicicleta nova, por aqui, sai muito caro, as mais baratas custam mais de 400 euros e não tem nenhum atrativo (amortecedores, marcha). Alugar por um longo prazo também não compensa, o aluguel diário de um bicicleta em Colônia saia por cerca de 15 euros.

A solução é comprar uma usada e o lugar perfeito para isso são as fahrrad flohmarkt, ou seja, o mercado de pulga de bicicletas. A maioria das cidades tem os seu, eles ocorrem em geral no sábado e o lugar varia, esse aqui é o site dando as datas e os locais dessa feira em Köln: http://www.fahrradmarkt-koeln.de/.

É possível achar boas bicicletas por 60 euros. A maioria das bicicletas no entanto são aquelas urbanas (não sei corretamente a denominação), elas tem pneu fino e freiam quando você tenta pedalar para trás, são feitas para andar dentro da cidade, no dia a dia. Eu no entanto comprei uma moutain bike, é o tipo de bicicleta mais comum no Brasil, é boa para terrenos irregulares e trilhas, possui marcha e o seu pneu é mais grosso. Como é um tipo raro por aqui ela me custou cerca de 100 euros. Eu ainda tive que comprar os refletores para as rodas e as lanternas traseira e dianteira, que são itens obrigatórios por aqui.

Eu não comprei ela pensando em "economizar o dinheiro do ticket", de fato eu deixei de comprar o ticket mensal, mas eu tive gastos frequentes com ela no mecânico, uma vez que eu morava à 11km do meu curso, o desgaste que a bicicleta sofria era muito grande.

No entanto eu não me arrependo, visitei várias cidades próximas com ela: Brühl, Bonn, Remagen... Remagen foi uma ótima experiência, foram 4h só para ir, pedalando ao lado do Reno.

Tive alguns acidentes, claro, em uma única noite eu fui parar em uma auto-estrada (que é proibida para bicicletas), fiquei ilhado embaixo de um viaduto (tive que escalar um morrinho, com a dita cuja nas costas) e por fim, perto de casa, subi mal uma calçada e fui arremessado, me ralando todo quando "pousei" no chão. Eu também atropelei um senhor, uma vez, mas não deu nenhuma complicação.

O maior problema da bicicleta, acredito eu, é na hora de fazer a mudança. Na primavera e no verão, os ônibus de viagem podem transportar bicicletas, não sei no entanto como funciona exatamente esse esquema. Tem gente que falou em pegar carona no blablacar, mas é difícil esse tipo de coisa. Você também pode pegar os trens regionais e ir comprando o ticket de bicicleta para cada trem que você tomar, é mais barato do que a alternativa que eu escolhi, mas é mais trabalhosa e se você estiver levando muitas malas (como eu) pode te dar uma dor de cabeça que a economia não vai valer a pena.

Eu viajei direto, com um trem da classe IC. Para poder levar minha bicicleta eu tive que ir no escritório da DB (agência responsável pelo transporte público alemão) e comprar minha passagem com uma reserva para a minha bicicleta. A brincadeira toda saiu em 100 euros (passagem + reserva), mas eu pude trazer a minha amada comigo além de viajar confortavelmente.

Comprar uma bicicleta foi de longe o meu maior acerto aqui na Alemanha, não me arrependo de te-la comprado e sempre que me perguntam eu recomendo a comprar. Não pela economia com os trens, mas pela experiência que ela pode te proporcionar!



domingo, 8 de fevereiro de 2015

Treinamento cultural.

Na primeira semana não tivemos aulas de alemão, ao invés disso tivemos um treinamento cultural, atividades administrativas e um teste de nivelamento. Basicamente foi uma semana para nos adaptarmos ao novo ambiente.

Inicialmente fomos divididos em dois grupos, com exceção de um, eu e todos os meus colegas de alojamentos estivemos no mesmo grupo. Os responsáveis pelo nosso grupo eram dois alemães do curso de idiomas, uma do administrativo e um professor que falava português fluentemente, enquanto a senhora do administrativo falava o professor traduzia em tempo real, ambos eram muito amigáveis, o que não impediu que a primeira semana fosse um tanto massante.

As palestras sobre as diferenças culturais foram realmente interessantes, elas explicavam que existiam culturas em que a comunicação é mais direta que outras, que povos de regiões extremamente frias costumam ter na sua linguagem mais de uma palavra para a cor branca, que existem culturas onde não existe limite definido para trabalho e vida pessoal e várias outras coisas do tipo, que eu escreverei mais tarde, pois muitas delas eu aprendi na "marra".

Uma coisa interessante sobre essas palestras, que eu acho interessante falar agora é o gráfico sobre o choque cultural:



Apesar dessa curva, eu não notei em mim, ou em meus colegas mais próximos esse choque cultural. Provavelmente porque nenhum de nós tem de fato muito contato com os alemães. No entanto tenho uma amiga aqui que aparentemente está passando por esse choque cultural a ponto de dizer em alto e bom tom que não aguenta mais a Alemanha, em alemão...

Houveram palestras também sobre o seguro saúde, alojamento, supermercados. O tipo de palestra que falam o que todo mundo já sabe, ou o que ninguém quer saber. Sempre piorada por pessoas, que não sei se é por alguma carência de atenção, ou por acharem bonito, ou por não conseguirem calar a boca, fazem perguntas e essas perguntas estão bem na interseção dos conjuntos: COISAS QUE TODO MUNDO JÁ SABE, MAS NINGUÉM DÁ A MÍNIMA.

Fizemos também algumas atividades administrativas, como a compra do passe mensal, pagamento do calção do alojamento, abertura de conta no Deutsche Bank (recomendável, para fazer matrícula em academia e etc, você precisa de uma conta aqui).

Eu também usei a semana para comprar um celular (eu não tinha), um chip, comprei da operadora O2 e até agora não tenho tido dor de cabeça com ela, comprei um casaco e um parde botinas e para ambos eu recomendo comprar tão cedo. Eu acabei pagando "caro". Caro talvez não seja a melhor palavra, o preço até era bem acessível, mas acabei vendo mais tarde, que poderia ter comprado um casaco e botinas melhores por um preço muito mais baixo.

Por fim, eu me perdi um bocado em Colônia, a cidade é muito grande e a minha sorte é que eu tinha dois mapas comigo, um da cidade e outro da rede de metrôs, no final da semana eu já sabia de cor os esquemas do metrô, no entanto aprender isso foi inútil para mim, após meu segundo final de semana nessa cidade, eu nunca mais iria usar essa informação.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O Pão

Bem, como eu havia dito, eu comprei um pão de cereais no ALDI, enquanto estava ainda no hotel. Era um pão grande devia ter uns 30cm x 15cm x 10cm e foi perto de ser minha única comida por uns dias.

Começamos com um caso de amor, eu confuso e com muita fome e o pão lá, recém saído da máquina, quentinho, macio, cheio de cereais... eu comi quase um terço dele! Cortando com as mão, sem manteiga nem nada, só uma coca-cola para acompanhar! No dia seguinte foi ele que me recebeu no hotel, depois do susto que eu passei no EDEKA e dessa vez eu tinha Nutella, facas e água para me acompanhar. Tá certo que ele não era mais o mesmo, mas nada que a Nutella não escondesse. De noite ele ainda era "comível", mas já não importava colocar Nutella nele, valia mais a pena comer ele no seco e depois comer Nutella pura para pelo menos dar um gosto bom. No dia seguinte, ainda existia pão o suficiente para eu levar para o alojamento. E eu, por algum motivo, considerei uma boa ideia levar o pão...

Após um bom café da manhã no hotel, embalei minhas coisas, fiz o checkout na recepção e pedi um táxi. Eu fiz isso com uma boa margem de erro, de forma que eu cheguei quase duas horas adiantado no ponto de encontro. perto de quarenta minutos antes do horário estipulado eu vi um rapaz com uma mochila com a bandeira do Brasil e uma mala grande e apesar desses dois fatores serem bons sinais de que ele era um possível outro estudante do CsF, mas eu, devido ao meu estado de mau-humor e confusão mental, ignorei esses fatores. Dez minutos depois, desembarca uma linda guria de um táxi e com ela vem duas malas grandes e uma com uma bandeira do Brasil. Ajudei ela a tirar as malas do porta-malas do carro e de fato ela era brasileira, estudante do CsF, com isso começamos a conversar em português e o sujeito se aproximou e começou a conversar com a gente, a partir daí, vários outros estudantes foram aparecendo e fomos formando um grande circulo no ponto de encontro. E o pão, claro, quieto, dentro de uma sacola que eu estava levando.

Aos poucos alguns carros foram aparecendo com um papel afixado no vidro, com o logo do curso de idiomas, os motoristas desciam do carro com umas listas e chamavam alguns nomes de alguns alunos do CsF, estes embarcavam nos determinados veículos e eram encaminhados aos seus devidos alojamentos.

Não demorou muito e chegou a minha vez, eu, mais três brasileiros e claro, o pão, embarcamos em uma van. O veículo mal saiu do lugar e os que seriam meus colegas de alojamento começaram uma animada conversa sobre o lugar, aparentemente o endereço foi nos mandado por e-mail (que eu não verifiquei) e eles procuraram o local no google maps, de acordo com eles era bem isolado, longe de tudo, meio barra pesada, só tinha fábrica e armazém do lado, ou melhor, fábrica, armazém e um put... um estabelecimento comercial onde pessoas comercializam algo com a qual nasceram e esse comércio não é classificado como mercado negro de órgãos. Eu no entanto, não me preocupei tanto assim, pior que Hellsende não deveria ser.

E de fato não era. Realmente pareceu ser bem isolado de tudo (fica de fato longe do centro, mas existe uma boa área residencial e comercial aqui perto), mas nada barra pesada. O único triste é que levamos quase uma hora para chegar no lugar, o que indicava que perderíamos umas duas horas todo o dia só no deslocamento curso de idiomas/casa. O nosso alojamento ficava no alto de um prédio de "3 andares" no qual funcionava também o depósito de alguma firma e o escritório de alguma outra.

Fomos recebidos pelo Zelador e pelo que acreditamos ser a sua esposa. Ele só falava alemão e por sorte um dos nossos conseguia falar bem e se comunicar com ele. Ele nos deu um bolo de chaves e cada um escolheu um quarto, sobrando uma chave que ele recolheu, que seria para um brasileiro, previsto para chegar mais tarde. Depois disso ele explicou que os apartamentos 1, 2, 3 e 7 tinham que compartilhar o banheiro e a cozinha, os demais tinha banheiro e cozinha próprios. Para estes que tinham que compartilhar, havia uma escala de faxina semanal, e logo na primeira semana o apt 1 estava escalado para limpar o banheiro enquanto o 3 deveria limpar a cozinha. Eu, e o pão, eramos o apt 1.

O apartamento era (é, estou escrevendo nele) grande, havia uma grande televisão, uma mesa grande, uma cama, um armário, duas cadeiras e muito espaço. Não foi difícil arrumar minhas coisas, coloquei as roupas no armário, o computador em um canto da mesa e o pão, a nutella e as facas em outro. Habilitei o wi-fi, testei a internet e estando tudo ok, fiquei atoa.

Meus colegas estavam reclamando de fome, soubemos que havia um supermercado perto, mas também descobrimos que, com exceção de alguns restaurantes, nada na Alemanha abre aos domingos. Eu até ofereci o pão, mas o pessoal achou melhor irmos até o centro e comermos algo lá. E foi o que fizemos e perdemos mais 1/24 avos do dia dentro de um meio de transporte (o trem).

E isso para não ficar mais do que meia hora em um KFC, pois de fato não havia nada aberto e nem dava para passear direito, pois estava chovendo e a maioria de nós só tínhamos um casaco. Voltamos para a casa, totalizando assim 1/8 do dia dentro de algum veículo e ficamos fazendo nada até a fome bater de novo, mas rápido neles do que em mim, pois eu tinha um pão, uma garrafa d'água e nutella. Mas o fato é que o pão já não era mais o mesmo, foi com desgosto e pesar que eu comi algo que parecia uma esponja velha dentro de uma casca dura, estava ruim e eu preferi compartilhar a fome dos meus companheiros de alojamento do que comer o resto do pão. Ainda tentei me iludir "vou deixar o resto dele para o café da manhã".

Pouco depois disso chegou um táxi trazendo um novo estudante, tanto o taxista quanto o estudante não sabiam bem onde deveriam entrar e a sorte é que eu estava saindo para correr. Descobri que o sujeito era da minha cidade (mais tarde viria a descobrir que apesar dele ser da universidade, ele estudou no instituto inclusive chegou a começar uma graduação lá e que ele mora um quarteirão de distância da minha casa). Devido a todas as impossibilidades de comunicação tive que acordar o tradutor para ele intermediar a comunicação do Zelador, com o taxista e o novo estudante (que sortudo, pegou o quarto que havia sobrado, que era um com banheiro e cozinha).

Meus companheiros decidiram matar a fome pedindo uma pizza e essa foi a maior prova de que alguém entre nós sabia falar alemão. A pizza demorou um bocado para chegar, eu sei porque eu fiquei esperando o entregador chegar, do lado de fora do alojamento. Não era nada com relação à um desespero do tipo "se eu não comer essa pizza, vou ter que comer o pão", era mais uma curiosidade: desde que havia chegado na Alemanha, não havia visto uma moto sequer na rua, estava curioso para ver como viria o entregador e de fato ele não veio de moto e sim de smart.

Comemos e cada um contou sobre sua viagem de vinda para a Alemanha. No fim ajudamos a limpar o quarto que "hospedou" a janta, eu fui tomar meu banho e dormir pois no dia seguinte começaria o curso de alemão.

Acordamos cedo, todos com muita fome. Eu pelo "menos tenho o pão" pensei. Olhei para o pão, ele apenas me encarou, peguei a faca, ele fez com que não se importasse, comecei a serrar o bicho, uma pequena serragem caia sobre o plástico que eu comecei a sentir sobre a mesa mas eu estava apenas arranhando a criatura. Coloquei mais força, me perguntei se o corte da faca era tal qual o do serrote, ou se era igual à uma tico-tico... meu braço estava doendo e o corte não tinha avançado muito. Larguei a faca tomei distância, respirei fundo, avancei sobre o pão, dei um grito de carga e com muito esforço parti o pedaço que sobrava em dois. Com rancor nas aveias, o pão meio que me disse: "hahaha se você teve esse trabalho todo para me partir com uma faca nova, como acha que vai me mastigar". Mas eu conhecia um truque, ou achava que conhecia. Coloquei o pão e um pouco de água em uma panela, tampei e deixei esquentando. Esperava que ele estivesse mais macio quando o processo terminasse. De fato ele estava, agora era uma massa disforme, mutante, parecia um barro com viés barroco. "Por qual motivo fizeste isso comigo???"  e eu respondi "Eu... eu só queria um pão mais macio", ele não precisou nem dar a entender "Por favor me descarte", talvez ele até porque ele nem quisesse isso, talvez ele quisesse vingança, mas na dúvida eu sempre penso na melhor das intenções e por isso fui jogar ele no lixo. O bicho estava grudado na panela e precisou de umas cinco pancadas para cair na lixeira, alguém jura ter ouvido um "eu voltarei", mas eu não ouvi nada, só o ronco da minha barriga.

Felizmente a fome era um problema compartilhado pelos meus colegas e nós resolvemos ela em um Kiosk, do lado do centro de idiomas.







sábado, 6 de dezembro de 2014

O Hotel

"E eu não gosto de gente."

Como eu cheguei alguns dias antes do alojamento fornecido pelo centro de idiomas ficar disponível, eu tive que arrumar um lugar para ficar. Eu poderia ter ficado de baixo de uma ponte, mas eu não conhecia as pontes do Reno, além claro, de eu não tem uma boa experiência com pontes... Eu poderia ficar 3 dias no aeroporto, dormindo umas poucas horas, mas, acredito eu, que isso não seria saudável. Eu poderia arrumar uma confusão e ser preso, mas eu não conhecia a legislação alemã e é muito difícil calcular uma confusão que vá me render 3 dias certos de cadeia. Podia ter ficado em um hostel, mas eu não gosto de gente, por isso eu gastei um pouco mais e fiquei em um hotel mesmo, um bom hotel, diga-se de passagem, confortável, limpo e com um bom café da manhã incluído e que eu paguei uns 400 dilmas para ficar esse período (dilmas mesmo, não euros).

Cheguei bem de noite, quase madrugada, havia duas lindas atendentes e eu não precisei desembolar muito do inglês, bastou mostrar o voucher (eu reservei o hotel quando ainda estava no Br, por via de uma empresa especializada em viagens e intercâmbios) e elas me deram um formulário para preencher, me explicaram como acessar o Wi-Fi e me deram a chave do meu quarto. O quarto ficava no 3º andar e apesar de existir elevador eu preferi subir de escadas.

O quarto não era pequeno, havia uma cama de casal com algo que eu julgava ser um colchonete em cima do colchão (era o cobertor), uma bancada com uma grande TV, um aquecedor, uma janela (que eu tentei abrir e não consegui) um armário embutido, e um banheiro.

Apesar de ter chegado com fome, cansado e suado, a primeira coisa que eu fiz foi ficar online e conversar com a minha família e eu demorei umas boas horas fazendo isso. Em seguida fui tomar meu primeiro banho aqui e essa foi uma experiência... "notável". Acho que ninguém pode imaginar que um banho, ou pelo menos operar o aparelhamento do banheiro possa ser algo complicado, mesmo com um oceano de distância entre o seu banheiro padrão e o seu novo banheiro. O box deles parece uma pia grande e o chuveiro não é fixo, na verdade, na primeira vez que eu tomei banho, eu imaginei que fosse uma versão melhor daqueles chuveirinhos que você segura na mão e vai enxaguando o corpo. Eu não havia notado de primeira, mas esse chuveirinho fica numa garra que por sua vez fica presa numa barra. É possível correr a garra na barra de forma a deixar o chuveirinho fixo numa altura desejada. Outra coisa diferente é a torneira. Aqui existem, naturalmente outros tipos de torneira, mas uma das que eu mais vejo por aqui e é a que tinha no hotel é uma torneira em forma de alavanca. Com essa torneira você pode controlar o fluxo e a temperatura da água e isso pode ser um inferno no seu primeiro banho. Eu naturalmente fui girando ela em torno do próprio eixo (dentro da limitação de 180º) e não vi sair uma gota d'água, imaginei que o meu chuveiro estava quebrado e entrei em desespero quando vi que teria que explicar aquilo em alemão, às duas da madrugada! Felizmente, por acidente, eu inclinei a alavanca em relação ao plano da parede e fui pego por uma enxurrada de água fria, mas que em fração de segundos esquentou e começou a me cozinhar vivo. Depois do trauma, do choque térmico e do coma, estudei minuciosamente o mecanismo e consegui encontrar uma temperatura agradável para tomar meu banho.

Apesar do hotel oferecer um excelente café da manhã eu não pude desfrutar desse serviço... isso porque não servem cafés da manhã ao meio dia. Eu acordei tarde e acordei com muito sono, comi um resto de chocolate que eu tinha conversei mais um pouco com a minha família e dei uma volta na rua. Tentei identificar pontos de ônibus, lixeiras e telefones públicos, ver como era o trânsito e a arquitetura e organização das casas no ambiente. Infelizmente eu estava cansado e confuso demais e só consegui foi comprar uma coca e confundir uma lixeira de jogar vidro com um tipo de robô...

Após retornar ao hotel, conversei mais um pouco com a minha família, cochilei e então saí para a minha segunda caminhada, nela encontrei um supermercado ALDI e lá eu comprei um grande Pão com cereais e um litro de coca-cola. Voltei com isso para o hotel e comi parte do pão e tomei parte da coca. Isso não é alimentação saudável, sequer acho que isso pode ser chamado de alimentação, mas eu estava bem confuso e bem cansado e na hora me pareceu uma boa ideia. Me pareceu uma boa ideia também pegar um ônibus, de noite e tentar chegar na estação central. Dei uma olhada no google sobre o que deveria fazer e então parti para pegar a condução e peguei...

Peguei o ônibus errado. Eu não sabia, mas estava indo na direção oposta a que eu queria. Para piorar não tinha cobrador, perguntei ao motorista onde eu pagava a passagem e ele me mostrou uma máquina e eu fiquei um bom tempo parado na frente da máquina tentando descobrir o que eu deveria fazer. Haviam pelo menos 9 opções de passagem e nem a tradução para o inglês me fez descobrir qual era a certa. Eu acabei pagando uma de 1,90€ que hoje eu sei que é para distâncias curtas (4 estações). Por sorte eu, sem saber, fiz todo o procedimento correto, comprei a passagem e coloquei ela numa outra máquina com uma fenda (achando que ela ia ler o código de barras atrás da passagem) e a máquina carimbou ela (o que me deu um susto). Não seio motivo, mas eu cismei que a palavra Chempark era suficientemente parecida com Hauptbahnhof e desci nesse complexo industrial da Bayer, bem ao norte da cidade. Vi que tinha feito merda e vi que não tinha nada de interessante lá a não ser uma caixa de Aspirina gigante. Fiquei com receio de pegar outro ônibus e resolvi voltar a pé, no entanto não sabia para que lado eu deveria ir. Voltei para o ponto de ônibus e analisei o mapa e os nomes das estações, um dos sentidos me levaria de volta. Procurei Chempark no mapa e vi que ele estava bem no norte, deduzi que provavelmente o sul era o caminho do hotel. Fui então seguindo de ponto de ônibus em ponto de ônibus e depois de uma boa caminhada de quase uma hora e meia eu cheguei de volta no Hotel e desabei na cama.

No segundo dia eu... perdi o café da manhã de novo. Tive que comer mais um pouco do pão com cereais que não estava assim tão ruim. Caminhei e encontrei um supermercado EDEKA, nele eu comprei um pote de Nutella, umas facas de cozinha e um copo, um desodorante, espuma de barbear e uma garrafa d'água. Na hora de pagar, no entanto, tentei pagar com o BB Américas e o cartão foi recusado. Não entendi bem o que houve, na hora eu fiquei assustado, achei que o cartão tinha sido acusado como falso! A atendente e o gerente discutiram algo em voz alta e eu fiquei um tanto preocupado, vislumbrando a hora que a polícia ia entrar naquela porra e que eu teria que me explicar... Não que eu temesse ter que me explicar, quem não deve, não teme. O problema é que eu teria que me explicar em alemão... Felizmente eles me disseram que meu cartão não funcionava e eu paguei em dinheiro. Saí do supermercado e fui direto para casa, doido para tomar um gole d'água e como se não bastasse a tensão no estabelecimento comercial anterior eu ainda quase infarto na hora de abrir minha garrafa, que resolve bancar a terrorista e manda água por todo o quarto. Essa é uma segunda observação bem importante, água com gás aqui é uma bebida bastante popular...

Um pouco mais tarde tentei novamente chegar à Hauptbahnhof, tentei chegar a pé  e depois de quase uma hora de caminhada parei para perguntar à um cidadão se eu estava no caminho certo. Esse sujeito, bem como a grande maioria dos alemães a quem eu pedi ajuda, foi muito solícito e educado. Ele me disse que eu estava na direção certa, mas que a Hbf estava muito longe, então ele me levou até um ponto de ônibus e esperou comigo até que o busão chegasse, quando eu embarquei ele fez questão de falar com o motorista e com um casal de passageiros que eu era brasileiro, que eu não falava bem alemão e que eu queria chegar na Hbf, mas ele mesmo não embarcou no ônibus. Quando eu cheguei na Hbf o casal foi até onde eu estava sentado e me avisaram que havíamos chegado no nosso destino, eu agradeci e parti para explorar o centro.

Depois de mais algumas horas de caminhada eu fiz minha primeira refeição decente (decente???) um Dönner, batatas fritas e duas coca-colas. Eu aprendi a não gostar muito de Dönner, mas no dia me pareceu a comida dos Deuses. Depois eu andei mais um bocado, comprei um Tablet com o BB Américas e por fim voltei para a Hbf e em seguida para o hotel. Me concentrei em guardar minhas coisas na mochila (e agora eu tinha mais um Tablet, umas facas, um copo, uma espuma de barbear, um pote de nutella e o Pão para guardar). Dormi cedo, disposto a não perder o café da manhã.

No último dia eu finalmente consegui desfrutar do café da manhã. Acordei cedo e me empanturrei de pão com tudo, queijo, café, chá, suco, iogurte, mel, cereais, bolo e tudo o que podia, devo ter comido até palito de dente e guardanapo, mas não importa, depois de dias de miséria, finalmente dei um pouco de dignidade à minha barriga. Fiz o checkout e pedi um táxi, não queria correr o risco de me perder e chegar atrasado na Hbf. Lá o centro de idiomas ficou de nos mandar táxis, para nos levar aos nossos alojamentos. Mas isso fica para a próxima postagem.

Pontos importantes:
-O BB Américas pode não funcionar em todos os lugares.


sábado, 1 de novembro de 2014

A viagem

Despedidas não são fáceis e não foi fácil para mim. Quando eu passei do ponto de revista no aeroporto do Galeão eu cheguei a tentar calcular aproximadamente quantas horas faltariam para que eu pudesse voltar. A espera, da revista até o voo foi particularmente difícil e pesada, eu só estava levando um livro sobre IA para ler e eu não tinha música para ouvir, ou vídeos para ver, eu não podia nem comprar nada naquela parte do aeroporto, pois eu não tinha dinheiro em reais.

O embarque no avião também não foi muito agradável, esses aviões que cruzam o atlântico são grandes, tem muita gente para entrar e a minha fileira foi uma das últimas a embarcar. Eu devo ter ficado uma boa metade de hora plantado na fila. Eu fiquei tão firme no chão que uma miniatura de Francês resolveu me usar como referência para ficar correndo, dando círculos em volta de mim. Eu lembro também de ter comprado um lugar na janela, no entanto fiquei no meio, da fila do meio, da parte do meio do avião do meio... Para piorar, minha poltrona não travava as costas. Não, não é que eu não sabia, eu ainda testei a poltrona do lado (antes de alguém ocupa-la) e consegui travar. Era a minha poltrona, em especial que não travava. E claro, isso me atrapalhou um pouco na hora do "travem os cintos e mantenham seus acentos na posição vertical." A aeromoça, portuguesa, me chamou a atenção e o diálogo que se seguiu foi um tanto... cômico:

-Senhor, deves "deixar" teu acento na posição vertical.
-Mas minha cadeira não trava.
-Trave-a.
-Como?
-Travando-a.
-Mas como eu faço isso.
-Fazendo-a travar!

Acabou que eu ajeitei o acento e cuidei para não encostar minhas costas nele até o fim da decolagem.

O início do voo foi meio desesperador, eu não tinha janela para ver, os acentos não se moviam muito e na telinha da frente do acento não passava nenhum filme, só música, achei que passaria as longas horas de voo num tédio mortal. Isso me preocupou mais do que chance de queda do avião ou qualquer coisa do tipo. Felizmente, depois de quase uma hora de voo os filmes começaram a passar e eu passei a viagem vendo animações. As minhas únicas pausas foram para comer.

O jantar no avião foi uma experiência única! O comissário de bordo me ofereceu duas opções: sduiewfds, ou qualquer coisa do tipo porque eu não entendi porcaria nenhuma, ou alguma coisa pasta. Eu obviamente escolhi o alguma coisa pasta e logo de cara já vi que não seria fácil comer aquilo. Não, não era feio, nem cheirava mal, o problema é que a organização das coisas era estranha e eu não sabia o que era o prato principal, o que era a sobremesa, como abria as tigelinhas, onde estavam os talheres e como se comia aquilo. Eu então esperei uma moça que estava ao meu lado começar a se servir e então passei a imitar seus passos. Cada coisa que ela fazia eu repetia de uma forma bem desajeitava: Ela estendeu o guardanapo sobre o colo e eu joguei o meu no colo, ele caiu no chão, eu baixei para pegar e com isso bati com a cabeça na bandeja. Ela abriu o pote de salada, eu abri o meu com força e uma cebola caiu no copo de vinho de uma senhora que felizmente não percebeu nada. A guria tirou os talheres de algum lugar, eu não vi, entrei em desespero e fiquei observando a senhora da cebola até que ela tirou os talheres debaixo da tigela da refeição principal, acabei dando um soco na minha cara ao tentar destacar os meus, misturei minha sobremesa com meu prato principal e quase derrubei minha pepsi, que tinha gosto de desinfetante de banheiro de estrada.

De resto a viagem foi bem monótona  e no final eu ainda consegui cochilar uma meia horinha. Eu cheguei no aeroporto de Lisboa umas cinco da manhã, passei em um banheiro e depois segui para a fila da imigração.

Segui esperando uma entrevista com o próprio demo. Só tinha uma passagem de ida e esperava pelo menos ter que explicar o motivo da minha viagem. Porcaria nenhuma, fiquei mais tempo na fila do que com o policial da imigração. Na verdade eu fiquei mais tempo no banheiro do que com o policial. O sujeito só perguntou para onde eu estava indo, disse que estava indo para a Alemanha, para viajar, ele pediu minha passagem e mandou eu passar. Eu cheguei a achar que a imigração fosse depois daquilo, mas não, duas perguntas e o cara me chutou para dentro de Portugal e eu pude seguir tranquilo para outra fila gigantesca.

A minha permanência na fila para a revista foi um tanto mais agradável que minha permanência nas outras duas últimas filas. Isso porque havia um grupo de brasileiros na minha frente e uma senhora, deste grupo me reconheceu como brasileiro. Eu fiquei realmente espantado por ter sido reconhecido como nativo do Brasil e indaguei se foi minha aparência multiétnica, meu porte, alguma coisa que eu fiz, a simpática senhora, no entanto, não se ateve a esse tipo de detalhe e respondeu que me viu me como brasileiro apenas por causa da bandeira do Brasil costurada no braço da minha camisa. Eu fiquei boa parte do meu tempo na fila conversando com ela, sendo interrompido apenas por duas freiras que perguntaram se era ali o local para seguir para a revista e após receberem a resposta positiva tomaram a liberdade de furar a mesma (furar a fila, não a veia). Eu até pensei em dizer que eu estava na fila também, mas, eram freiras... sei lá, deve dar azar.

A revista foi bem tranquila, apesar do detector apitar comigo. Eu tive que passar por uma revista mais severa, mas ao menos não tive que passar por outra fila para isso e logo fui liberado. Liberado para ficar plantado no aeroporto por mais oito horas. Nesse tempo eu comprei um remédio para dor de cabeça (eu precisava), um lego para poder usar um computador de uma loja (depois eu descobri que era de graça) e eu fiz um lanche. Fiquei abismado com os brinquedos educativos de uma loja, num kit de 17€ você podia montar um carrinho movido à água e em outro de mesmo preço, você podia montar um robô movido à energia solar. Por burrice e falta de espaço não os comprei.

Eu procurei manter minha bandeira no braço à mostra e isso funcionou, fui identificado por outro brasileiro, um estudante de letras que estava indo fazer intercâmbio na França, mas não pelo CsF (até porque, injustamente, se tem vagas para letras no CsF, são bem poucas). Tivemos uma conversa muito agradável, culminando no assunto linguística, que eu gosto muito e tenho vontade de estudar com maior profundidade no futuro.

Pelo horário do almoço, um amigo meu, que também veio pelo CsF, também para a Alemanha, chegou no aeroporto, um tanto indignado, diga-se de passagem, pelo falo do policial ter mandado ele limpar a bunda com a carta da embaixada. Meu amigo, no entanto, teve que embarcar tão logo ele chegou e assim não pudemos conversar muito.

Minha conexão até Munique foi também pela TAP, mais uma vez fiquei longe da janela e eu não tive, dessa vez, nem música para ouvir ou filme para ver de modo que a viagem foi um porre. Ao menos em Munique as coisas ficaram um pouco mais interessantes...

Em Lisboa eu notei que os africanos se vestiam muito melhor que os europeus. Os africanos (não sei exatamente qual região, mas acredito que pelas vestimentas sejam de nações da áfrica subsaariana) usavam vestes tradicionais, bem coloridas e arrumadas. As meninas tinham trançados bem trabalhados e na maioria das vezes as tranças terminavam em pingente. Todos eles mantinham uma postura altiva, nobre e segura. Os europeus, ou pelo menos acredito que sejam, pois não passaram pela emigração, andavam quando não despenteados, com os cabelos emaranhados. As roupas eram tão alternativas que parece que eles se meteram em um saco qualquer e se deram por vestidos. O porte era o mais lamentável, parecia que todos estavam de ressaca, muitos não aguentavam ficar de pé nas filas e logo sentavam no chão, por todo o aeroporto haviam deles deitados e sentados no chão. Quando andavam, andavam curvados e arrastando o pé e jogavam o lixo em qualquer lugar. Eu pensei, várias vezes "Esses europeus são uns loucos" e "Esses europeus são uns decadentes". No entanto o aeroporto de Munique mudou minha visão.

Em Munique eu dei de cara com um exército de clones do meu pai e todos vestiam terno. Realmente eu fiquei espantado como os usuários daquele aeroporto se assemelhavam fisicamente ao meu pai. Não vi também ninguém deitado ou sentado no chão, ninguém jogando lixo fora das lixeiras e ninguém se arrastando pelo aeroporto. Mantive então só o "Esses europeus são uns loucos".

Uma coisa que me chamou a atenção, tanto no aeroporto de Munique, quanto no de Lisboa, foi a existência das cabines de fumantes. Parece que não há uma campanha anti-tabagismo tão forte aqui, quanto no Brasil. Aparentemente os Alemães em especial não tem certos tabus, por exemplo, no banheiro do aeroporto de Munique haviam máquinas que vendiam brinquedos sexuais...

A viagem até Colônia foi bem tranquila, foi feita pela Lufthansa e dessa vez eu sentei na janela. Após desembarcar, só tive que esperar a minha outra mochila (que eu havia embalado ela no Galeão e por isso estava parecendo um ovo alienígena verde fluorecente) aparecer na esteira e então pegar um táxi e me mandar para o hotel.

É importante salientar que o taxista não entendia inglês e provavelmente ele não era uma exceção, no entanto bastou eu mostrar o endereço do hotel que ele me levou de boa, tentando antes perguntar algo sobre futebol. Mas ele perguntou isso porque ele era turco. Desde que eu cheguei aqui, só um alemão me perguntou sobre futebol, todos os demais que fizeram perguntas sobre o tema eram turcos. Não sei qual a fixação da turquia, ou pelo menos dos turcos que moram aqui, ou dos descentes de tucos sobre futebol. Nem sei porque tentam perguntar isso tão logo descobrem que a pessoa com quem conversam é do Brasil. Todo mundo sabe que o esporte nacional é o vôlei, nunca ouvi falar que o Brasil é o país do futebol, ou pátria de chuteiras, nem sei de onde tiram essas idéias, futebol é um esporte que a gente nem conhece muito. Vôlei sim a gente manda bem, mas futebol, quem liga?

Eu cheguei no hotel morto, mas ainda tomei um banho, conversei com o pessoal em casa e tentei assistir tv (só tinha propaganda de telesexo, inclusive no canal infantil). Já era dia 29 e eu havia saído do Brasil dia 27. Apesar disso tive dificuldade para dormir, só conseguindo quase na manhã do dia seguinte, o que infelizmente me fez perder meu café da manhã. Meus dias no hotel foram todos assim, dormindo e comendo mal, mas isso eu deixo para a próxima postagem.

Resumindo:

-Em Portugal, aparentemente, a imigração é bem tranquila.
-Só entregue os documentos que as autoridades pedirem, isso se pedirem.
-Leve algo para ouvir música, ver vídeos ou mesmo ler, se não a viagem vai ser um porre.
-Leve escrito o endereço do seu hotel, hostel, ou seja lá onde você vai ficar quando chegar.




sábado, 27 de setembro de 2014

Os preparativos viagem.

Antes de mais nada eu preciso deixar algo claro. Eu hoje tenho 26 anos. A maior parte dos meus amigos já estão formados, trabalhando e alguns até com família constituída. Escolher o CsF não foi algo fácil, pois significava levar mais um ano, um ano e meio para me formar.Eu também não acredito que um ano em uma faculdade estrangeira vá fazer tanta diferença em meu currículo, um concorrente com um currículo parecido, sem esse um ano, mas com um técnico na área vai ter mais chances do que eu de conseguir a vaga.  Não que o curso aqui fora seja inútil, mas as vantagens dele, penso, só vão ser vislumbradas a um longo prazo e tem mais a ver com educação e auto-aperfeiçoamento do que como um registro em um documento. Já o idioma, ainda mais o domínio do idioma na área técnica, esse sim é um diferencial que pode ser aproveitado a curto prazo e é por isso que eu escolhi a Alemanha.

Engenheiros com bom domínio sobre o inglês é quase uma regra, português no Brasil, bom nem preciso falar... Já o Alemão não é uma língua lá muito comum de se encontrar falantes na nossa terra natal e é a língua de uma nação que praticamente domina as feiras de mecânica... Além disso é o país do qual minha família veio, eu tive um pouco do elemento germânico na minha criação e minha cidade natal mesmo teve duas colônias germânicas o que explica sempre uma certa admiração por aqui.

Eu tentei numa chamada anterior, mas eu não tinha nota de ENEM e por isso fui barrado.Eu entrei por vestibular no instituto e o último ENEM que eu tinha (não) feito foi em 2006 na EsPCEx e eu nem fiz a prova porque estava com amidalite. Eu também não me estressei com o fato deles me barrarem por isso, apesar de estar escrito que aceitariam o ENEM do final daquele ano (2013). Teve gente querendo processar, dar golpe de estado, andar nu na rua, mas eu preferi esperar a próxima chamada (para andar nu na ru... digo, para tentar o intercâmbio.). E não precisei esperar muito, na chamada posterior eu já fui aprovado.

Preparativos parte I: Burocracias, documentos, ou cuidado com o que dizem seus colegas:

Uma questão que me deixou um pouco tenso foi a burocracia envolvida no processo (que é pouca em relação aos valores e responsabilidades envolvidas). Tive medo de perder alguns prazos e eu faltei a algumas reuniões promovidas pela relações internacionais do meu instituto, por mais que eu procurasse me informar com meus colegas, sempre tive a impressão de estar deixando passar algum prazo. O processo no entanto é bastante tranquilo, mas eu recomendo a todos futuros candidatos que se informem mais do que eu me informei para não passar por certas situações que eu passei... Mas deem preferência aos órgãos oficiais (relações internacionais da sua instituição, CAPES, ou CNPQ).

Entendam, se você perguntar para qualquer bolsista CsF qual o benefício da bolsa para ele, provavelmente ele vai responder que é uma oportunidade única de estudar nas melhores instituições de ensino do mundo, aprender um novo idioma e ter contato com outra cultura. No fundo, todavia para muitos envolve também o glamour de uma viagem internacional, a oportunidade de viver na nação ou continente dos seus sonhos, uma chance de independência e por isso muitos candidatos não apenas querem o CsF, eles no fundo estão desesperados pelo programa e qualquer chance de erro, qualquer ameaça à candidatura deles é atacada ferozmente com um excesso extremo de cautela. Isso explica porque nas comunidades do facebook do CsF existem listas enormes de documentos que não aparecem em nenhum lugar do edital, porque tem candidato gastando grana em cartório e despachante com coisa que ele não vai usar para nada e porque tem candidato quase tendo infarto com notícia falsa.

Mesmo eu, que pensei em desistir do processo umas duas vezes, por causa da minha idade e que não dava importância ao que era dito na comunidade do facebook tive meus ataques cardíacos por conta de, não de boatos, mas por conta de fatos mal interpretados...

Por isso o melhor é focar na comunicação oficial a CAPES e no meu caso (Alemanha) o DAAD mandam sempre e-mails avisando dos prazos e da documentação exigida, no meu caso também a Relações Internacionais também está sempre mantendo os candidatos informados das tarefas burocráticas pendentes. Não façam nada que está além do edital, além do linha direta. É perda de tempo e dinheiro.

Preparativos parte II: Enxoval e cuidado com o que levam e dizem seus colegas:

Eu sou conhecido pelos meus colegas por não fazer malas grandes. Para vir para cá eu levei duas mochilas, nelas haviam roupas para uma semana (6 camisas, 2 calças jeans, 1 Calção de corrida, 1 camiseta, 1 camisa de manga comprida, 8 pares de meia, 8 cuecas, 1 ceroula),1 toalha, 1 respiron (um aparelho para fazer exercícios para aumentar a capacidade respiratória), 1 livro, 1 caderno, 1 pasta com documentos, 1 laptop com fonte e mouse, 1 estojo com remédios, pasta de dentes escova e minha calculadora HP. Fui no corpo com uma calça de nylon (tipo abrigo esportivo), uma camisa do instituto porque tinha a bandeira do Brasil na manga e um casaco leve. De calçado só fui com o que eu estava usando, um tênis e é claro estava usando roupas de baixo, meus óculos e meu relógio. Não levei celular. Acho que trouxe um pen-drive também, não sei ao certo, lembro de ter visto ele aqui um dia desses, mas não estou vendo mais, deve ter saído para passar uma temporada em Bonn, ou coisa do tipo.

Eu pessoalmente não tenho sentido falta de nada, comprei mais uma camisa aqui, porque achei na promoção, comprei um casaco de inverno, luvas, botas de inverno gorro e um casaco capa de chuvas. Todos os itens são de boa qualidade e com exceção das botas eu paguei bem barato neles.

Mais uma vez é preciso tomar cuidado com o que dizem os colegas. Em comunidades do facebook e até em alguns blogs dos bolsistas do CsF é comum encontrar muito achismo. Eu vi uns checklists para enxoval que parecia mais que o pessoal estava se preparando para o armagedom. Tomem cuidado com isso, até com as dicas e truques. Nada do que eu deixei de trazer me fez falta. Se adaptar às diferenças ambientais é uma tarefa que você deve fazer quando chegar aqui e não adianta tentar fazer isso com experiências alheias. Além disso é bem mais capaz de que a região tenha em bom preço os itens necessários para contornar as intempéries dela. Eu tenho quase certeza de que botas para a neve são mais baratas na Finlândia que no Brasil. Esperem chegar aqui e comprem aquilo que vocês forem sentindo necessidade, acredito que seja a alternativa mais econômica, prática e com menos dor de cabeça.

Também tomem cuidado com certas recomendações. Realmente existe algo de que você só pode levar 100ml de líquido (remédio líquido). Mas é 100ml de líquido POR EMBALAGEM, ou seja, você pode levar até 1l de cada tipo de medicamento, se tiver levando eles em 10 embalagens de 100ml. Como disse você pode levar até 10 de cada medicamento sem ter problemas e você não precisa apresentar a receita de nenhum medicamento, no aeroporto eles não pedem isso, só os de uso controlado, que são os tarja preta. Você não precisa também levar os medicamentos em saco ziplock. O que precisa estar em um saco lacrado são as bebidas compradas nas lojas, nas lojas... esqueci o nome, mas são umas lojas especiais, que para comprar nelas você precisa apresentar o cartão de embarque e elas vendem produtos, parece, sem impostos aduaneiros. A única recomendação que eu acho válida é levar todo líquido e spray na bagagem de mão. A maioria dos aviões não tem a área de carga pressurizada e com a diferença de pressão as embalagens desse tipo de produto podem explodir. Nada grave, o avião nem vai sentir, provavelmente você também só vai perder esses produtos, mas acredito que vai fazer uma sujeira dentro da sua mala...

Preparativos parte III: A vinga... digo, passagens, dinheiro, reservas:

Eu deixei para comprar as passagens só quando o dinheiro caísse, por isso assisti uma agoniante subida no preço das mesmas. Ainda assim consegui comprar uma passagem, só de ida, direto para Colônia (Köln) e ainda sobrou dinheiro. Comprei as passagens na CI (central de intercâmbios) uma loja especializada, na minha cidades, eles lá tem experiência em achar esse tipo de coisa bem barata. Também lá eu reservei um hotel, pois a data de chegada do meu voo era de três dias antes da disponibilidade do alojamento. Hostel em geral é mais barato, mas eu preferi a tranquilidade e o isolamento de um hotel mesmo e não me arrependo.

O dinheiro da bolsa realmente demorou a cair, só no último mês é que eu vi a grana, mas deu para fazer tudo o que era necessário. Comprei as passagens, reservei hotel, troquei 400 € para levar na carteira (fiz isso em uma casa de câmbio) e... fiz um VTM. Eu não ia fazer o VTM, pretendia mudar meu cartão do banco para bandeira internacional, ia ser mais útil (de fato ia, tem lugar que o BB américas não passa, tem lugar que o VTM não passa, tem lugar que não aceitam o VTM porque não tem um nome escrito nele e tem lugar que pede um cartão de banco para que você possa se cadastrar, como academias de musculação por exemplo). Mas eu não consegui fazer isso. Tive que fazer o tal VTM, fiz na CI também e recomendo que quem for fazer dê preferência a fazer um com chip. Minha tutora do PET, no instituto, fez pós-doutorado na Alemanha e falou que era um inferno o VTM, dela que não tinha chip, porque não passava em quase lugar nenhum e ela não conseguia sacar nada dele.

O VTM, para quem não sabe (e eu também não sabia) é um cartão que você recarrega um quantidade x de dinheiro nele (no caso x euros), pagando por boleto (no caso você faz isso no Brasil) e ai você pode usar essa quantidade x de euros como se fosse um cartão de crédito (você passa como crédito, não como débito, mas ele não te cobra juros de crédito, porque é um dinheiro que você já tem).

Resumindo:

-A burocracia envolvida no processo de seleção não é tão grande levando em conta o padrão nacional
-Fique atento e faça apenas o que os órgãos oficiais pedem que você faça, não procure pelo em ovo.
-Ignore boatos, se você tiver que fazer alguma coisa, ela vai estar escrita no edital, ou será avisada pela CAPES, CNPQ, DAAD, Relações Internacionais ou qualquer outro órgão competente por e-mail.
-Não invente moda, leve só o necessário, aquilo que você usa durante a semana e alguns remédios, você não tem muito como prever o clima da região e como vai lidar com isso até chegar aqui. O que você sentir necessidade você compra aqui.
-O dinheiro vai demorar a chegar, mas ele chega. E dá tempo de fazer tudo.

Boa sorte a todos que vão tentar. Desculpem a falta de coesão no meu texto, escrevi ele aos poucos, com vários dias de intervalo é provável que ele esteja um pouco confuso. Pretendo ainda nesse final de semana postar como foi minha viagem.








domingo, 21 de setembro de 2014

Blog Möller sem fronteiras.

Esse blog tem por objetivo compartilhar as minhas experiências (Frederico Möller) durante meu intercâmbio pelo programa Ciência sem fronteiras. O mesmo contará com no mínimo uma postagem mensal, até pelo menos o fim do programa.