sábado, 1 de novembro de 2014

A viagem

Despedidas não são fáceis e não foi fácil para mim. Quando eu passei do ponto de revista no aeroporto do Galeão eu cheguei a tentar calcular aproximadamente quantas horas faltariam para que eu pudesse voltar. A espera, da revista até o voo foi particularmente difícil e pesada, eu só estava levando um livro sobre IA para ler e eu não tinha música para ouvir, ou vídeos para ver, eu não podia nem comprar nada naquela parte do aeroporto, pois eu não tinha dinheiro em reais.

O embarque no avião também não foi muito agradável, esses aviões que cruzam o atlântico são grandes, tem muita gente para entrar e a minha fileira foi uma das últimas a embarcar. Eu devo ter ficado uma boa metade de hora plantado na fila. Eu fiquei tão firme no chão que uma miniatura de Francês resolveu me usar como referência para ficar correndo, dando círculos em volta de mim. Eu lembro também de ter comprado um lugar na janela, no entanto fiquei no meio, da fila do meio, da parte do meio do avião do meio... Para piorar, minha poltrona não travava as costas. Não, não é que eu não sabia, eu ainda testei a poltrona do lado (antes de alguém ocupa-la) e consegui travar. Era a minha poltrona, em especial que não travava. E claro, isso me atrapalhou um pouco na hora do "travem os cintos e mantenham seus acentos na posição vertical." A aeromoça, portuguesa, me chamou a atenção e o diálogo que se seguiu foi um tanto... cômico:

-Senhor, deves "deixar" teu acento na posição vertical.
-Mas minha cadeira não trava.
-Trave-a.
-Como?
-Travando-a.
-Mas como eu faço isso.
-Fazendo-a travar!

Acabou que eu ajeitei o acento e cuidei para não encostar minhas costas nele até o fim da decolagem.

O início do voo foi meio desesperador, eu não tinha janela para ver, os acentos não se moviam muito e na telinha da frente do acento não passava nenhum filme, só música, achei que passaria as longas horas de voo num tédio mortal. Isso me preocupou mais do que chance de queda do avião ou qualquer coisa do tipo. Felizmente, depois de quase uma hora de voo os filmes começaram a passar e eu passei a viagem vendo animações. As minhas únicas pausas foram para comer.

O jantar no avião foi uma experiência única! O comissário de bordo me ofereceu duas opções: sduiewfds, ou qualquer coisa do tipo porque eu não entendi porcaria nenhuma, ou alguma coisa pasta. Eu obviamente escolhi o alguma coisa pasta e logo de cara já vi que não seria fácil comer aquilo. Não, não era feio, nem cheirava mal, o problema é que a organização das coisas era estranha e eu não sabia o que era o prato principal, o que era a sobremesa, como abria as tigelinhas, onde estavam os talheres e como se comia aquilo. Eu então esperei uma moça que estava ao meu lado começar a se servir e então passei a imitar seus passos. Cada coisa que ela fazia eu repetia de uma forma bem desajeitava: Ela estendeu o guardanapo sobre o colo e eu joguei o meu no colo, ele caiu no chão, eu baixei para pegar e com isso bati com a cabeça na bandeja. Ela abriu o pote de salada, eu abri o meu com força e uma cebola caiu no copo de vinho de uma senhora que felizmente não percebeu nada. A guria tirou os talheres de algum lugar, eu não vi, entrei em desespero e fiquei observando a senhora da cebola até que ela tirou os talheres debaixo da tigela da refeição principal, acabei dando um soco na minha cara ao tentar destacar os meus, misturei minha sobremesa com meu prato principal e quase derrubei minha pepsi, que tinha gosto de desinfetante de banheiro de estrada.

De resto a viagem foi bem monótona  e no final eu ainda consegui cochilar uma meia horinha. Eu cheguei no aeroporto de Lisboa umas cinco da manhã, passei em um banheiro e depois segui para a fila da imigração.

Segui esperando uma entrevista com o próprio demo. Só tinha uma passagem de ida e esperava pelo menos ter que explicar o motivo da minha viagem. Porcaria nenhuma, fiquei mais tempo na fila do que com o policial da imigração. Na verdade eu fiquei mais tempo no banheiro do que com o policial. O sujeito só perguntou para onde eu estava indo, disse que estava indo para a Alemanha, para viajar, ele pediu minha passagem e mandou eu passar. Eu cheguei a achar que a imigração fosse depois daquilo, mas não, duas perguntas e o cara me chutou para dentro de Portugal e eu pude seguir tranquilo para outra fila gigantesca.

A minha permanência na fila para a revista foi um tanto mais agradável que minha permanência nas outras duas últimas filas. Isso porque havia um grupo de brasileiros na minha frente e uma senhora, deste grupo me reconheceu como brasileiro. Eu fiquei realmente espantado por ter sido reconhecido como nativo do Brasil e indaguei se foi minha aparência multiétnica, meu porte, alguma coisa que eu fiz, a simpática senhora, no entanto, não se ateve a esse tipo de detalhe e respondeu que me viu me como brasileiro apenas por causa da bandeira do Brasil costurada no braço da minha camisa. Eu fiquei boa parte do meu tempo na fila conversando com ela, sendo interrompido apenas por duas freiras que perguntaram se era ali o local para seguir para a revista e após receberem a resposta positiva tomaram a liberdade de furar a mesma (furar a fila, não a veia). Eu até pensei em dizer que eu estava na fila também, mas, eram freiras... sei lá, deve dar azar.

A revista foi bem tranquila, apesar do detector apitar comigo. Eu tive que passar por uma revista mais severa, mas ao menos não tive que passar por outra fila para isso e logo fui liberado. Liberado para ficar plantado no aeroporto por mais oito horas. Nesse tempo eu comprei um remédio para dor de cabeça (eu precisava), um lego para poder usar um computador de uma loja (depois eu descobri que era de graça) e eu fiz um lanche. Fiquei abismado com os brinquedos educativos de uma loja, num kit de 17€ você podia montar um carrinho movido à água e em outro de mesmo preço, você podia montar um robô movido à energia solar. Por burrice e falta de espaço não os comprei.

Eu procurei manter minha bandeira no braço à mostra e isso funcionou, fui identificado por outro brasileiro, um estudante de letras que estava indo fazer intercâmbio na França, mas não pelo CsF (até porque, injustamente, se tem vagas para letras no CsF, são bem poucas). Tivemos uma conversa muito agradável, culminando no assunto linguística, que eu gosto muito e tenho vontade de estudar com maior profundidade no futuro.

Pelo horário do almoço, um amigo meu, que também veio pelo CsF, também para a Alemanha, chegou no aeroporto, um tanto indignado, diga-se de passagem, pelo falo do policial ter mandado ele limpar a bunda com a carta da embaixada. Meu amigo, no entanto, teve que embarcar tão logo ele chegou e assim não pudemos conversar muito.

Minha conexão até Munique foi também pela TAP, mais uma vez fiquei longe da janela e eu não tive, dessa vez, nem música para ouvir ou filme para ver de modo que a viagem foi um porre. Ao menos em Munique as coisas ficaram um pouco mais interessantes...

Em Lisboa eu notei que os africanos se vestiam muito melhor que os europeus. Os africanos (não sei exatamente qual região, mas acredito que pelas vestimentas sejam de nações da áfrica subsaariana) usavam vestes tradicionais, bem coloridas e arrumadas. As meninas tinham trançados bem trabalhados e na maioria das vezes as tranças terminavam em pingente. Todos eles mantinham uma postura altiva, nobre e segura. Os europeus, ou pelo menos acredito que sejam, pois não passaram pela emigração, andavam quando não despenteados, com os cabelos emaranhados. As roupas eram tão alternativas que parece que eles se meteram em um saco qualquer e se deram por vestidos. O porte era o mais lamentável, parecia que todos estavam de ressaca, muitos não aguentavam ficar de pé nas filas e logo sentavam no chão, por todo o aeroporto haviam deles deitados e sentados no chão. Quando andavam, andavam curvados e arrastando o pé e jogavam o lixo em qualquer lugar. Eu pensei, várias vezes "Esses europeus são uns loucos" e "Esses europeus são uns decadentes". No entanto o aeroporto de Munique mudou minha visão.

Em Munique eu dei de cara com um exército de clones do meu pai e todos vestiam terno. Realmente eu fiquei espantado como os usuários daquele aeroporto se assemelhavam fisicamente ao meu pai. Não vi também ninguém deitado ou sentado no chão, ninguém jogando lixo fora das lixeiras e ninguém se arrastando pelo aeroporto. Mantive então só o "Esses europeus são uns loucos".

Uma coisa que me chamou a atenção, tanto no aeroporto de Munique, quanto no de Lisboa, foi a existência das cabines de fumantes. Parece que não há uma campanha anti-tabagismo tão forte aqui, quanto no Brasil. Aparentemente os Alemães em especial não tem certos tabus, por exemplo, no banheiro do aeroporto de Munique haviam máquinas que vendiam brinquedos sexuais...

A viagem até Colônia foi bem tranquila, foi feita pela Lufthansa e dessa vez eu sentei na janela. Após desembarcar, só tive que esperar a minha outra mochila (que eu havia embalado ela no Galeão e por isso estava parecendo um ovo alienígena verde fluorecente) aparecer na esteira e então pegar um táxi e me mandar para o hotel.

É importante salientar que o taxista não entendia inglês e provavelmente ele não era uma exceção, no entanto bastou eu mostrar o endereço do hotel que ele me levou de boa, tentando antes perguntar algo sobre futebol. Mas ele perguntou isso porque ele era turco. Desde que eu cheguei aqui, só um alemão me perguntou sobre futebol, todos os demais que fizeram perguntas sobre o tema eram turcos. Não sei qual a fixação da turquia, ou pelo menos dos turcos que moram aqui, ou dos descentes de tucos sobre futebol. Nem sei porque tentam perguntar isso tão logo descobrem que a pessoa com quem conversam é do Brasil. Todo mundo sabe que o esporte nacional é o vôlei, nunca ouvi falar que o Brasil é o país do futebol, ou pátria de chuteiras, nem sei de onde tiram essas idéias, futebol é um esporte que a gente nem conhece muito. Vôlei sim a gente manda bem, mas futebol, quem liga?

Eu cheguei no hotel morto, mas ainda tomei um banho, conversei com o pessoal em casa e tentei assistir tv (só tinha propaganda de telesexo, inclusive no canal infantil). Já era dia 29 e eu havia saído do Brasil dia 27. Apesar disso tive dificuldade para dormir, só conseguindo quase na manhã do dia seguinte, o que infelizmente me fez perder meu café da manhã. Meus dias no hotel foram todos assim, dormindo e comendo mal, mas isso eu deixo para a próxima postagem.

Resumindo:

-Em Portugal, aparentemente, a imigração é bem tranquila.
-Só entregue os documentos que as autoridades pedirem, isso se pedirem.
-Leve algo para ouvir música, ver vídeos ou mesmo ler, se não a viagem vai ser um porre.
-Leve escrito o endereço do seu hotel, hostel, ou seja lá onde você vai ficar quando chegar.