sábado, 7 de março de 2015

E foi quando eu a vi, foi amor a primeira vista! (Liebe in Deutschland)



No meu segundo final de semana em Köln, logo após o treinamento intercultural, eu saí cedo de casa, com a sensação de que o destino havia reservado algo especial para mim.

Era uma manhã agradável de verão, a luz do sol tornava vívido o verde dos gramados e árvores da cidade, a temperatura estava agradável, era como se o dia estivesse convidando as pessoas a saírem de casa. Eu havia tomado um bahn (um metrô) para o centro e depois eu fui caminhando para uma praça, chamada Friesenplatz. Eu tinha quase certeza que ela estaria lá, esperando por mim, eu ainda não a conhecia, mas estava disposto a descobri-la.

E eu não precisei me esforçar muito, foi de cara, amor à primeira vista, entre centenas de outras eu a vi, imponente, orgulhosa, de uma beleza sem igual! Fui decidido, eu queria tê-la para mim, custasse o que que custasse! Tomei-a para mim, antes que outro o fizesse, levei-a para um canto, fiquei admirando sua beleza, depois dei-lhe presentes e então fui com ela para a minha casa.

O caminho foi longo, mas nem um pouco cansativo, pude aprecia-la a cada segundo do passeio, passamos por lugares lindos, que eu nem podia imaginar que existiam em uma cidade tão grande. Foi maravilhoso, quis contar dela para todos os meus amigos, mas me contive, não era a hora.

Passeamos e nos perdemos no final da tarde, a nossa sorte é que era verão e o sol demorou a se por, conseguimos voltar para a casa sãos e salvos.

Passei um bom tempo com ela em Köln, fomos juntos quase todos os dias para o curso de idiomas, fizesse sol, chuva, ou neve, eu sempre ia com ela. Passeamos bastante, conhecemos a região, o Reno era nosso lugar favorito.

Por todos esses bons momentos juntos eu não pude deixa-la para trás e por isso eu paguei mais caro, vim de trem e não de ônibus, para Kiel, para poder levar ela,minha bicicleta, comigo.

Em outras linhas:

Bicicletas são bem populares aqui na Alemanha, a maioria das cidades tem ciclovia e é bem seguro pedalar por aqui, a maior ameaça à segurança dos ciclistas são justamente... os outros ciclistas. No entanto não espere uma utopia de duas rodas, é comum carros pararem na ciclovia, na verdade é comum e é legal e você ciclistas não pode dar uma de terrorista de duas rodas e se indignar e criar barraco com isso (como muita gente faz, em certos lugares do mundo), você deve apenas dar a "seta" sair da ciclovia e retornar assim que possível.

Köln é uma cidade muita plana, perfeita para andar de bicicleta, eu não demorei a perceber isso e assim que pude fui procurar uma para comprar, no entanto uma bicicleta nova, por aqui, sai muito caro, as mais baratas custam mais de 400 euros e não tem nenhum atrativo (amortecedores, marcha). Alugar por um longo prazo também não compensa, o aluguel diário de um bicicleta em Colônia saia por cerca de 15 euros.

A solução é comprar uma usada e o lugar perfeito para isso são as fahrrad flohmarkt, ou seja, o mercado de pulga de bicicletas. A maioria das cidades tem os seu, eles ocorrem em geral no sábado e o lugar varia, esse aqui é o site dando as datas e os locais dessa feira em Köln: http://www.fahrradmarkt-koeln.de/.

É possível achar boas bicicletas por 60 euros. A maioria das bicicletas no entanto são aquelas urbanas (não sei corretamente a denominação), elas tem pneu fino e freiam quando você tenta pedalar para trás, são feitas para andar dentro da cidade, no dia a dia. Eu no entanto comprei uma moutain bike, é o tipo de bicicleta mais comum no Brasil, é boa para terrenos irregulares e trilhas, possui marcha e o seu pneu é mais grosso. Como é um tipo raro por aqui ela me custou cerca de 100 euros. Eu ainda tive que comprar os refletores para as rodas e as lanternas traseira e dianteira, que são itens obrigatórios por aqui.

Eu não comprei ela pensando em "economizar o dinheiro do ticket", de fato eu deixei de comprar o ticket mensal, mas eu tive gastos frequentes com ela no mecânico, uma vez que eu morava à 11km do meu curso, o desgaste que a bicicleta sofria era muito grande.

No entanto eu não me arrependo, visitei várias cidades próximas com ela: Brühl, Bonn, Remagen... Remagen foi uma ótima experiência, foram 4h só para ir, pedalando ao lado do Reno.

Tive alguns acidentes, claro, em uma única noite eu fui parar em uma auto-estrada (que é proibida para bicicletas), fiquei ilhado embaixo de um viaduto (tive que escalar um morrinho, com a dita cuja nas costas) e por fim, perto de casa, subi mal uma calçada e fui arremessado, me ralando todo quando "pousei" no chão. Eu também atropelei um senhor, uma vez, mas não deu nenhuma complicação.

O maior problema da bicicleta, acredito eu, é na hora de fazer a mudança. Na primavera e no verão, os ônibus de viagem podem transportar bicicletas, não sei no entanto como funciona exatamente esse esquema. Tem gente que falou em pegar carona no blablacar, mas é difícil esse tipo de coisa. Você também pode pegar os trens regionais e ir comprando o ticket de bicicleta para cada trem que você tomar, é mais barato do que a alternativa que eu escolhi, mas é mais trabalhosa e se você estiver levando muitas malas (como eu) pode te dar uma dor de cabeça que a economia não vai valer a pena.

Eu viajei direto, com um trem da classe IC. Para poder levar minha bicicleta eu tive que ir no escritório da DB (agência responsável pelo transporte público alemão) e comprar minha passagem com uma reserva para a minha bicicleta. A brincadeira toda saiu em 100 euros (passagem + reserva), mas eu pude trazer a minha amada comigo além de viajar confortavelmente.

Comprar uma bicicleta foi de longe o meu maior acerto aqui na Alemanha, não me arrependo de te-la comprado e sempre que me perguntam eu recomendo a comprar. Não pela economia com os trens, mas pela experiência que ela pode te proporcionar!



domingo, 8 de fevereiro de 2015

Treinamento cultural.

Na primeira semana não tivemos aulas de alemão, ao invés disso tivemos um treinamento cultural, atividades administrativas e um teste de nivelamento. Basicamente foi uma semana para nos adaptarmos ao novo ambiente.

Inicialmente fomos divididos em dois grupos, com exceção de um, eu e todos os meus colegas de alojamentos estivemos no mesmo grupo. Os responsáveis pelo nosso grupo eram dois alemães do curso de idiomas, uma do administrativo e um professor que falava português fluentemente, enquanto a senhora do administrativo falava o professor traduzia em tempo real, ambos eram muito amigáveis, o que não impediu que a primeira semana fosse um tanto massante.

As palestras sobre as diferenças culturais foram realmente interessantes, elas explicavam que existiam culturas em que a comunicação é mais direta que outras, que povos de regiões extremamente frias costumam ter na sua linguagem mais de uma palavra para a cor branca, que existem culturas onde não existe limite definido para trabalho e vida pessoal e várias outras coisas do tipo, que eu escreverei mais tarde, pois muitas delas eu aprendi na "marra".

Uma coisa interessante sobre essas palestras, que eu acho interessante falar agora é o gráfico sobre o choque cultural:



Apesar dessa curva, eu não notei em mim, ou em meus colegas mais próximos esse choque cultural. Provavelmente porque nenhum de nós tem de fato muito contato com os alemães. No entanto tenho uma amiga aqui que aparentemente está passando por esse choque cultural a ponto de dizer em alto e bom tom que não aguenta mais a Alemanha, em alemão...

Houveram palestras também sobre o seguro saúde, alojamento, supermercados. O tipo de palestra que falam o que todo mundo já sabe, ou o que ninguém quer saber. Sempre piorada por pessoas, que não sei se é por alguma carência de atenção, ou por acharem bonito, ou por não conseguirem calar a boca, fazem perguntas e essas perguntas estão bem na interseção dos conjuntos: COISAS QUE TODO MUNDO JÁ SABE, MAS NINGUÉM DÁ A MÍNIMA.

Fizemos também algumas atividades administrativas, como a compra do passe mensal, pagamento do calção do alojamento, abertura de conta no Deutsche Bank (recomendável, para fazer matrícula em academia e etc, você precisa de uma conta aqui).

Eu também usei a semana para comprar um celular (eu não tinha), um chip, comprei da operadora O2 e até agora não tenho tido dor de cabeça com ela, comprei um casaco e um parde botinas e para ambos eu recomendo comprar tão cedo. Eu acabei pagando "caro". Caro talvez não seja a melhor palavra, o preço até era bem acessível, mas acabei vendo mais tarde, que poderia ter comprado um casaco e botinas melhores por um preço muito mais baixo.

Por fim, eu me perdi um bocado em Colônia, a cidade é muito grande e a minha sorte é que eu tinha dois mapas comigo, um da cidade e outro da rede de metrôs, no final da semana eu já sabia de cor os esquemas do metrô, no entanto aprender isso foi inútil para mim, após meu segundo final de semana nessa cidade, eu nunca mais iria usar essa informação.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O Pão

Bem, como eu havia dito, eu comprei um pão de cereais no ALDI, enquanto estava ainda no hotel. Era um pão grande devia ter uns 30cm x 15cm x 10cm e foi perto de ser minha única comida por uns dias.

Começamos com um caso de amor, eu confuso e com muita fome e o pão lá, recém saído da máquina, quentinho, macio, cheio de cereais... eu comi quase um terço dele! Cortando com as mão, sem manteiga nem nada, só uma coca-cola para acompanhar! No dia seguinte foi ele que me recebeu no hotel, depois do susto que eu passei no EDEKA e dessa vez eu tinha Nutella, facas e água para me acompanhar. Tá certo que ele não era mais o mesmo, mas nada que a Nutella não escondesse. De noite ele ainda era "comível", mas já não importava colocar Nutella nele, valia mais a pena comer ele no seco e depois comer Nutella pura para pelo menos dar um gosto bom. No dia seguinte, ainda existia pão o suficiente para eu levar para o alojamento. E eu, por algum motivo, considerei uma boa ideia levar o pão...

Após um bom café da manhã no hotel, embalei minhas coisas, fiz o checkout na recepção e pedi um táxi. Eu fiz isso com uma boa margem de erro, de forma que eu cheguei quase duas horas adiantado no ponto de encontro. perto de quarenta minutos antes do horário estipulado eu vi um rapaz com uma mochila com a bandeira do Brasil e uma mala grande e apesar desses dois fatores serem bons sinais de que ele era um possível outro estudante do CsF, mas eu, devido ao meu estado de mau-humor e confusão mental, ignorei esses fatores. Dez minutos depois, desembarca uma linda guria de um táxi e com ela vem duas malas grandes e uma com uma bandeira do Brasil. Ajudei ela a tirar as malas do porta-malas do carro e de fato ela era brasileira, estudante do CsF, com isso começamos a conversar em português e o sujeito se aproximou e começou a conversar com a gente, a partir daí, vários outros estudantes foram aparecendo e fomos formando um grande circulo no ponto de encontro. E o pão, claro, quieto, dentro de uma sacola que eu estava levando.

Aos poucos alguns carros foram aparecendo com um papel afixado no vidro, com o logo do curso de idiomas, os motoristas desciam do carro com umas listas e chamavam alguns nomes de alguns alunos do CsF, estes embarcavam nos determinados veículos e eram encaminhados aos seus devidos alojamentos.

Não demorou muito e chegou a minha vez, eu, mais três brasileiros e claro, o pão, embarcamos em uma van. O veículo mal saiu do lugar e os que seriam meus colegas de alojamento começaram uma animada conversa sobre o lugar, aparentemente o endereço foi nos mandado por e-mail (que eu não verifiquei) e eles procuraram o local no google maps, de acordo com eles era bem isolado, longe de tudo, meio barra pesada, só tinha fábrica e armazém do lado, ou melhor, fábrica, armazém e um put... um estabelecimento comercial onde pessoas comercializam algo com a qual nasceram e esse comércio não é classificado como mercado negro de órgãos. Eu no entanto, não me preocupei tanto assim, pior que Hellsende não deveria ser.

E de fato não era. Realmente pareceu ser bem isolado de tudo (fica de fato longe do centro, mas existe uma boa área residencial e comercial aqui perto), mas nada barra pesada. O único triste é que levamos quase uma hora para chegar no lugar, o que indicava que perderíamos umas duas horas todo o dia só no deslocamento curso de idiomas/casa. O nosso alojamento ficava no alto de um prédio de "3 andares" no qual funcionava também o depósito de alguma firma e o escritório de alguma outra.

Fomos recebidos pelo Zelador e pelo que acreditamos ser a sua esposa. Ele só falava alemão e por sorte um dos nossos conseguia falar bem e se comunicar com ele. Ele nos deu um bolo de chaves e cada um escolheu um quarto, sobrando uma chave que ele recolheu, que seria para um brasileiro, previsto para chegar mais tarde. Depois disso ele explicou que os apartamentos 1, 2, 3 e 7 tinham que compartilhar o banheiro e a cozinha, os demais tinha banheiro e cozinha próprios. Para estes que tinham que compartilhar, havia uma escala de faxina semanal, e logo na primeira semana o apt 1 estava escalado para limpar o banheiro enquanto o 3 deveria limpar a cozinha. Eu, e o pão, eramos o apt 1.

O apartamento era (é, estou escrevendo nele) grande, havia uma grande televisão, uma mesa grande, uma cama, um armário, duas cadeiras e muito espaço. Não foi difícil arrumar minhas coisas, coloquei as roupas no armário, o computador em um canto da mesa e o pão, a nutella e as facas em outro. Habilitei o wi-fi, testei a internet e estando tudo ok, fiquei atoa.

Meus colegas estavam reclamando de fome, soubemos que havia um supermercado perto, mas também descobrimos que, com exceção de alguns restaurantes, nada na Alemanha abre aos domingos. Eu até ofereci o pão, mas o pessoal achou melhor irmos até o centro e comermos algo lá. E foi o que fizemos e perdemos mais 1/24 avos do dia dentro de um meio de transporte (o trem).

E isso para não ficar mais do que meia hora em um KFC, pois de fato não havia nada aberto e nem dava para passear direito, pois estava chovendo e a maioria de nós só tínhamos um casaco. Voltamos para a casa, totalizando assim 1/8 do dia dentro de algum veículo e ficamos fazendo nada até a fome bater de novo, mas rápido neles do que em mim, pois eu tinha um pão, uma garrafa d'água e nutella. Mas o fato é que o pão já não era mais o mesmo, foi com desgosto e pesar que eu comi algo que parecia uma esponja velha dentro de uma casca dura, estava ruim e eu preferi compartilhar a fome dos meus companheiros de alojamento do que comer o resto do pão. Ainda tentei me iludir "vou deixar o resto dele para o café da manhã".

Pouco depois disso chegou um táxi trazendo um novo estudante, tanto o taxista quanto o estudante não sabiam bem onde deveriam entrar e a sorte é que eu estava saindo para correr. Descobri que o sujeito era da minha cidade (mais tarde viria a descobrir que apesar dele ser da universidade, ele estudou no instituto inclusive chegou a começar uma graduação lá e que ele mora um quarteirão de distância da minha casa). Devido a todas as impossibilidades de comunicação tive que acordar o tradutor para ele intermediar a comunicação do Zelador, com o taxista e o novo estudante (que sortudo, pegou o quarto que havia sobrado, que era um com banheiro e cozinha).

Meus companheiros decidiram matar a fome pedindo uma pizza e essa foi a maior prova de que alguém entre nós sabia falar alemão. A pizza demorou um bocado para chegar, eu sei porque eu fiquei esperando o entregador chegar, do lado de fora do alojamento. Não era nada com relação à um desespero do tipo "se eu não comer essa pizza, vou ter que comer o pão", era mais uma curiosidade: desde que havia chegado na Alemanha, não havia visto uma moto sequer na rua, estava curioso para ver como viria o entregador e de fato ele não veio de moto e sim de smart.

Comemos e cada um contou sobre sua viagem de vinda para a Alemanha. No fim ajudamos a limpar o quarto que "hospedou" a janta, eu fui tomar meu banho e dormir pois no dia seguinte começaria o curso de alemão.

Acordamos cedo, todos com muita fome. Eu pelo "menos tenho o pão" pensei. Olhei para o pão, ele apenas me encarou, peguei a faca, ele fez com que não se importasse, comecei a serrar o bicho, uma pequena serragem caia sobre o plástico que eu comecei a sentir sobre a mesa mas eu estava apenas arranhando a criatura. Coloquei mais força, me perguntei se o corte da faca era tal qual o do serrote, ou se era igual à uma tico-tico... meu braço estava doendo e o corte não tinha avançado muito. Larguei a faca tomei distância, respirei fundo, avancei sobre o pão, dei um grito de carga e com muito esforço parti o pedaço que sobrava em dois. Com rancor nas aveias, o pão meio que me disse: "hahaha se você teve esse trabalho todo para me partir com uma faca nova, como acha que vai me mastigar". Mas eu conhecia um truque, ou achava que conhecia. Coloquei o pão e um pouco de água em uma panela, tampei e deixei esquentando. Esperava que ele estivesse mais macio quando o processo terminasse. De fato ele estava, agora era uma massa disforme, mutante, parecia um barro com viés barroco. "Por qual motivo fizeste isso comigo???"  e eu respondi "Eu... eu só queria um pão mais macio", ele não precisou nem dar a entender "Por favor me descarte", talvez ele até porque ele nem quisesse isso, talvez ele quisesse vingança, mas na dúvida eu sempre penso na melhor das intenções e por isso fui jogar ele no lixo. O bicho estava grudado na panela e precisou de umas cinco pancadas para cair na lixeira, alguém jura ter ouvido um "eu voltarei", mas eu não ouvi nada, só o ronco da minha barriga.

Felizmente a fome era um problema compartilhado pelos meus colegas e nós resolvemos ela em um Kiosk, do lado do centro de idiomas.