"E eu não gosto de gente."
Como eu cheguei alguns dias antes do alojamento fornecido pelo centro de idiomas ficar disponível, eu tive que arrumar um lugar para ficar. Eu poderia ter ficado de baixo de uma ponte, mas eu não conhecia as pontes do Reno, além claro, de eu não tem uma boa experiência com pontes... Eu poderia ficar 3 dias no aeroporto, dormindo umas poucas horas, mas, acredito eu, que isso não seria saudável. Eu poderia arrumar uma confusão e ser preso, mas eu não conhecia a legislação alemã e é muito difícil calcular uma confusão que vá me render 3 dias certos de cadeia. Podia ter ficado em um hostel, mas eu não gosto de gente, por isso eu gastei um pouco mais e fiquei em um hotel mesmo, um bom hotel, diga-se de passagem, confortável, limpo e com um bom café da manhã incluído e que eu paguei uns 400 dilmas para ficar esse período (dilmas mesmo, não euros).
Cheguei bem de noite, quase madrugada, havia duas lindas atendentes e eu não precisei desembolar muito do inglês, bastou mostrar o voucher (eu reservei o hotel quando ainda estava no Br, por via de uma empresa especializada em viagens e intercâmbios) e elas me deram um formulário para preencher, me explicaram como acessar o Wi-Fi e me deram a chave do meu quarto. O quarto ficava no 3º andar e apesar de existir elevador eu preferi subir de escadas.
O quarto não era pequeno, havia uma cama de casal com algo que eu julgava ser um colchonete em cima do colchão (era o cobertor), uma bancada com uma grande TV, um aquecedor, uma janela (que eu tentei abrir e não consegui) um armário embutido, e um banheiro.
Apesar de ter chegado com fome, cansado e suado, a primeira coisa que eu fiz foi ficar online e conversar com a minha família e eu demorei umas boas horas fazendo isso. Em seguida fui tomar meu primeiro banho aqui e essa foi uma experiência... "notável". Acho que ninguém pode imaginar que um banho, ou pelo menos operar o aparelhamento do banheiro possa ser algo complicado, mesmo com um oceano de distância entre o seu banheiro padrão e o seu novo banheiro. O box deles parece uma pia grande e o chuveiro não é fixo, na verdade, na primeira vez que eu tomei banho, eu imaginei que fosse uma versão melhor daqueles chuveirinhos que você segura na mão e vai enxaguando o corpo. Eu não havia notado de primeira, mas esse chuveirinho fica numa garra que por sua vez fica presa numa barra. É possível correr a garra na barra de forma a deixar o chuveirinho fixo numa altura desejada. Outra coisa diferente é a torneira. Aqui existem, naturalmente outros tipos de torneira, mas uma das que eu mais vejo por aqui e é a que tinha no hotel é uma torneira em forma de alavanca. Com essa torneira você pode controlar o fluxo e a temperatura da água e isso pode ser um inferno no seu primeiro banho. Eu naturalmente fui girando ela em torno do próprio eixo (dentro da limitação de 180º) e não vi sair uma gota d'água, imaginei que o meu chuveiro estava quebrado e entrei em desespero quando vi que teria que explicar aquilo em alemão, às duas da madrugada! Felizmente, por acidente, eu inclinei a alavanca em relação ao plano da parede e fui pego por uma enxurrada de água fria, mas que em fração de segundos esquentou e começou a me cozinhar vivo. Depois do trauma, do choque térmico e do coma, estudei minuciosamente o mecanismo e consegui encontrar uma temperatura agradável para tomar meu banho.
Apesar do hotel oferecer um excelente café da manhã eu não pude desfrutar desse serviço... isso porque não servem cafés da manhã ao meio dia. Eu acordei tarde e acordei com muito sono, comi um resto de chocolate que eu tinha conversei mais um pouco com a minha família e dei uma volta na rua. Tentei identificar pontos de ônibus, lixeiras e telefones públicos, ver como era o trânsito e a arquitetura e organização das casas no ambiente. Infelizmente eu estava cansado e confuso demais e só consegui foi comprar uma coca e confundir uma lixeira de jogar vidro com um tipo de robô...
Após retornar ao hotel, conversei mais um pouco com a minha família, cochilei e então saí para a minha segunda caminhada, nela encontrei um supermercado ALDI e lá eu comprei um grande Pão com cereais e um litro de coca-cola. Voltei com isso para o hotel e comi parte do pão e tomei parte da coca. Isso não é alimentação saudável, sequer acho que isso pode ser chamado de alimentação, mas eu estava bem confuso e bem cansado e na hora me pareceu uma boa ideia. Me pareceu uma boa ideia também pegar um ônibus, de noite e tentar chegar na estação central. Dei uma olhada no google sobre o que deveria fazer e então parti para pegar a condução e peguei...
Peguei o ônibus errado. Eu não sabia, mas estava indo na direção oposta a que eu queria. Para piorar não tinha cobrador, perguntei ao motorista onde eu pagava a passagem e ele me mostrou uma máquina e eu fiquei um bom tempo parado na frente da máquina tentando descobrir o que eu deveria fazer. Haviam pelo menos 9 opções de passagem e nem a tradução para o inglês me fez descobrir qual era a certa. Eu acabei pagando uma de 1,90€ que hoje eu sei que é para distâncias curtas (4 estações). Por sorte eu, sem saber, fiz todo o procedimento correto, comprei a passagem e coloquei ela numa outra máquina com uma fenda (achando que ela ia ler o código de barras atrás da passagem) e a máquina carimbou ela (o que me deu um susto). Não seio motivo, mas eu cismei que a palavra Chempark era suficientemente parecida com Hauptbahnhof e desci nesse complexo industrial da Bayer, bem ao norte da cidade. Vi que tinha feito merda e vi que não tinha nada de interessante lá a não ser uma caixa de Aspirina gigante. Fiquei com receio de pegar outro ônibus e resolvi voltar a pé, no entanto não sabia para que lado eu deveria ir. Voltei para o ponto de ônibus e analisei o mapa e os nomes das estações, um dos sentidos me levaria de volta. Procurei Chempark no mapa e vi que ele estava bem no norte, deduzi que provavelmente o sul era o caminho do hotel. Fui então seguindo de ponto de ônibus em ponto de ônibus e depois de uma boa caminhada de quase uma hora e meia eu cheguei de volta no Hotel e desabei na cama.
No segundo dia eu... perdi o café da manhã de novo. Tive que comer mais um pouco do pão com cereais que não estava assim tão ruim. Caminhei e encontrei um supermercado EDEKA, nele eu comprei um pote de Nutella, umas facas de cozinha e um copo, um desodorante, espuma de barbear e uma garrafa d'água. Na hora de pagar, no entanto, tentei pagar com o BB Américas e o cartão foi recusado. Não entendi bem o que houve, na hora eu fiquei assustado, achei que o cartão tinha sido acusado como falso! A atendente e o gerente discutiram algo em voz alta e eu fiquei um tanto preocupado, vislumbrando a hora que a polícia ia entrar naquela porra e que eu teria que me explicar... Não que eu temesse ter que me explicar, quem não deve, não teme. O problema é que eu teria que me explicar em alemão... Felizmente eles me disseram que meu cartão não funcionava e eu paguei em dinheiro. Saí do supermercado e fui direto para casa, doido para tomar um gole d'água e como se não bastasse a tensão no estabelecimento comercial anterior eu ainda quase infarto na hora de abrir minha garrafa, que resolve bancar a terrorista e manda água por todo o quarto. Essa é uma segunda observação bem importante, água com gás aqui é uma bebida bastante popular...
Um pouco mais tarde tentei novamente chegar à Hauptbahnhof, tentei chegar a pé e depois de quase uma hora de caminhada parei para perguntar à um cidadão se eu estava no caminho certo. Esse sujeito, bem como a grande maioria dos alemães a quem eu pedi ajuda, foi muito solícito e educado. Ele me disse que eu estava na direção certa, mas que a Hbf estava muito longe, então ele me levou até um ponto de ônibus e esperou comigo até que o busão chegasse, quando eu embarquei ele fez questão de falar com o motorista e com um casal de passageiros que eu era brasileiro, que eu não falava bem alemão e que eu queria chegar na Hbf, mas ele mesmo não embarcou no ônibus. Quando eu cheguei na Hbf o casal foi até onde eu estava sentado e me avisaram que havíamos chegado no nosso destino, eu agradeci e parti para explorar o centro.
Depois de mais algumas horas de caminhada eu fiz minha primeira refeição decente (decente???) um Dönner, batatas fritas e duas coca-colas. Eu aprendi a não gostar muito de Dönner, mas no dia me pareceu a comida dos Deuses. Depois eu andei mais um bocado, comprei um Tablet com o BB Américas e por fim voltei para a Hbf e em seguida para o hotel. Me concentrei em guardar minhas coisas na mochila (e agora eu tinha mais um Tablet, umas facas, um copo, uma espuma de barbear, um pote de nutella e o Pão para guardar). Dormi cedo, disposto a não perder o café da manhã.
No último dia eu finalmente consegui desfrutar do café da manhã. Acordei cedo e me empanturrei de pão com tudo, queijo, café, chá, suco, iogurte, mel, cereais, bolo e tudo o que podia, devo ter comido até palito de dente e guardanapo, mas não importa, depois de dias de miséria, finalmente dei um pouco de dignidade à minha barriga. Fiz o checkout e pedi um táxi, não queria correr o risco de me perder e chegar atrasado na Hbf. Lá o centro de idiomas ficou de nos mandar táxis, para nos levar aos nossos alojamentos. Mas isso fica para a próxima postagem.
Pontos importantes:
-O BB Américas pode não funcionar em todos os lugares.